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Dicas práticas para uma viagem à Rússia

Depois de escrever sobre Moscou, resolvi organizar este post de dicas práticas para quem está planejando uma viagem de forma independente para a cidade e também para São Petersburgo. Muitas dessas informações já estão espalhadas pelos outros posts, mas não custa ordenar tudo.

– A melhor época para viajar: marquei a minha viagem para a segunda semana de junho, pensando em fugir do frio, mas não dei muita sorte, porque peguei vários dias de chuva. Eu não escolheria ir à Rússia no inverno, pois não me dou muito bem com as baixas temperaturas – embora a paisagem coberta de neve combine muito bem com as cúpulas douradas e o colorido das igrejas ortodoxas. Li que a pior época para visitar o país é a primavera, quando a neve derrete e se transforma em lama pelas ruas, mas a Georgia deixou um comentário informando que não viu nada disso em sua viagem, feita em abril. Para mim, a maior vantagem de ter ido no começo do verão foi ter dias longuíssimos, com o sol se pondo depois das 22:00h. Se der para evitar feriados nacionais, é melhor. Meus dias em Moscou coincidiram com a semana de um feriado importante, o Dia da Rússia, comemorado em 12 de junho, e isso acabou afetando a visitação da Praça Vermelha (parcialmente fechada no dia 07.06 e totalmente fechada de 08 a 11.06, sem falar na festa propriamente dita, no dia 12.06) e do Kremlin (visitas apenas por meio de excursões).

– O idioma russo: em Moscou, é fato que poucas pessoas falam inglês, mesmo nos serviços voltados para turistas. Encontrei muitas pessoas que não conseguiam se comunicar em inglês trabalhando em restaurantes, cafés e museus, e isso não é privilégio dos mais velhos. A exceção ficou por conta do hotel, onde todos os recepcionistas falavam ótimo inglês.

A sinalização das ruas, estações de metrô e atrações turísticas é quase somente em russo. Aprender o alfabeto cirílico é essencial para conseguir se deslocar sem dificuldade, e isso é mais fácil do que parece, principalmente quando a gente para de simplesmente decorar as letras e passa a tentar entender as palavras. Não adianta tentar falar nada russo, porque, com o sotaque, você não será compreendido. Mas três palavras são realmente úteis (e todos entendem porque esperam que você as diga):

Здравствуйте (zdras-tvui-tzia) ou sua variante um pouco menos formal здравствуй (zdras-tvui): significam “olá”. É com uma dessas expressões que você vai ser recebido em todos os lugares;

Пожалуйста (pajálasta): “por favor”;

Спасибо (spâssíba): “obrigado”.

– Pesquisas na internet: durante o planejamento da viagem, é melhor consultar os sites em russo, e não em inglês, pois aqueles tendem a estar mais atualizados do que estes. Se eu tivesse feito isso, teria descoberto que o Kremlin só receberia excursões no período da minha viagem, e não visitantes independentes, e poderia ter contratado um passeio a tempo. Como só descobri essa informação durante a viagem, fiquem sem fazer essa visita… Para facilitar a tarefa, o Google Chrome faz a tradução automática das páginas.

– Transfer: contratei um transfer na minha chegada a Moscou pelo aeroporto Domodedovo, porque meu voo chegava muito cedo, às 5:00h da manhã, quando o trânsito não seria um problema. Usei a empresa Go-to.ru, bem indicada no TripAdvisor. Mas, para voos que chegam no meio do dia, usar o trem que leva ao centro da cidade é muito recomendável, porque o trânsito de Moscou é intenso (para não dizer insano). Todas as informações sobre o transporte para o aeroporto Domodedovo estão aqui. Os aeroportos de Sheremetievo e Vnukovo também têm serviços de trem semelhante.

– Dinheiro: o cartão de crédito é bem aceito nas lojas e na maior parte dos restaurantes. Para sacar rublos, usei um cartão VTM (Visa Travel Money) nos caixas automáticos espalhados por Moscou e São Petersburgo, mas também dá para usar o cartão de banco comum habilitado para saques no exterior. Nos museus e atrações em geral, não me lembro de ter usado o cartão nenhuma vez, por só aceitarem dinheiro, inclusive nas lojas dos museus. A exceção foi o Hermitage, em São Petersburgo, onde o cartão era aceito nas lojas (para comprar a entrada, não sei, porque comprei pela internet).

– Segurança: me senti bastante segura durante toda a viagem. Como viajei durante o verão, em Moscou, só começava a anoitecer mesmo lá pelas 22:00h e em São Petersburgo… bom, eram as noites brancas, em que praticamente não há noite fechada. Nessas condições, a sensação de segurança é maior. A ideia de que os russos bebem em excesso é totalmente verdadeira, vi muitos grupos bebendo pelas ruas mesmo e presenciei uma cena deprimente, de um senhor totalmente bêbado, no meio da tarde, catando comida nas lixeiras de um quiosque onde eu tinha parado pra lanchar. Mas nada causou problemas. Basta seguir o próprio caminho, que ninguém vem incomodar. Policiais corruptos pedindo propina… certamente aconteceu no passado, mas hoje isso parece ser uma lenda.

– Transporte entre Moscou e São Petersburgo: escolhi fazer essa viagem usando o trem de alta velocidade – SAPSAN – o que evita ter de se deslocar para um dos aeroportos de Moscou. A viagem foi ótima, num trem confortável, com direito a wi-fi durante todo o trajeto. A parte de venda de bilhetes no site das ferrovias russas não está traduzida para o inglês, mas isso não é problema na hora de fazer a compra, pois algumas almas caridosas que frequentam o fórum da Rússia no TripAdvisor fizeram tutoriais que permitem entender todos os passos da transação (e o Google Chrome também ajuda nessa hora). Aqui está um deles. Mas eu não consegui comprar a passagem com o meu cartão de crédito brasileiro, provavelmente por ele não ter a tecnologia Verified by Visa. Poderia ter deixado para comprar a passagem em Moscou, mas preferi garantir lugar no trem que eu queria, e usei o serviço de uma agência on-line, a Way to Russia, que, segundo as minhas pesquisas, era uma empresa confiável. Paguei uns 25 ou 30% a mais pelo serviço, mas foi o preço da tranquilidade, e tudo funcionou perfeitamente.

– Transporte urbano: quando pesquisava para essa viagem, li que os táxis não são fáceis de usar, pois não têm taxímetro, e o preço depende de uma negociação, que fica muito desfavorável para um turista que não fala russo. Além disso, qualquer carro é um táxi em potencial: se o passageiro fizer um sinal na rua, qualquer carro pode parar e negociar o preço da “corrida”, e isso não é ilegal. Deixei de lado essas opções e fiquei com o transporte público. Em Moscou, usei o metrô, já que o trânsito da cidade é lento demais para os ônibus. Esse post do TripAdvisor ensina tudo o que é preciso saber para usar o metrô de Moscou.

Em São Petersburgo, onde as atrações turísticas estão mais concentradas, quase não usei o metrô, mas usei bastante os ônibus para ir do hotel ao Teatro Mariinsky (eu fui a vários espetáculos). O pagamento do bilhete de ônibus merece uma menção especial: nunca vi um sistema mais ineficiente! Umas senhorinhas ficam circulando dentro do ônibus, e você paga a passagem a elas (convém ter o valor exato). Quando o ônibus está vazio, é fácil, mas, se estiver cheio e o seu percurso for curto, há sério risco de não conseguir pagar (e de alguém pensar que você não QUER pagar…). Sei que existe um cartão magnético também, mas não consegui descobrir como comprar e se vale a pena para turistas.

– Atravessar a rua: principalmente em Moscou, existem várias avenidas que são intransponíveis pela superfície. Melhor do que correr o risco de atropelamento é procurar uma passagem subterrânea (sempre há uma perto das esquinas). Essas passagens são bastante movimentadas e em algumas delas, há vários quiosques de lanches, roupas, eletrônicos… o equivalente aos nossos camelôs.

– Igrejas ortodoxas: nessas igrejas, a mulher deve cobrir a cabeça em sinal de respeito. Eu só visitei as igrejas mais turísticas tanto em Moscou quanto em São Petersburgo, e isso não foi necessário, mas convém ter um lenço na bolsa para evitar qualquer problema.

– Gorjetas: em geral, não se espera gorjeta para serviços pelos quais você já está pagando um preço, como motoristas, camareiras etc. Mas em hotéis de redes internacionais, os costumes já são ocidentalizados… Em Moscou, fiquei num hotel da rede Accor, e a gorjeta foi bem recebida. Em São Petersburgo, meu hotel era mais básico, de uma rede local, e a camareira simplesmente não pegava a gorjeta que eu deixava, mesmo com bilhetinho de agradecimento e tudo, pra não deixar dúvidas! Na única excursão que fiz, percebi que a maioria das pessoas não deixou gorjetas para a guia e o motorista, mas eu deixei e ela ficou muito agradecida.

– Fotografia em museus: a maior parte dos museus que visitei permite fotografar suas obras, desde que você pague um valor adicional por isso. Mas é preciso se lembrar de pedir o ingresso com a “permissão” especial, porque essa opção não vai ser oferecida espontaneamente. No Hermitage, em São Petersburgo, quem compra o bilhete pela internet já tem essa opção incluída automaticamente.

– Dicas de leitura: gosto de me preparar para uma viagem lendo um pouco sobre a história local, e alguns livros foram essenciais:

Com Vista para o Kremlin, de Vivian Oswald: é o relato de uma jornalista brasileira que viveu por dois anos em Moscou, indispensável para saber um pouco sobre as diferenças culturais entre russos e brasileiros. Parece ser uma leitura bem popular entre turistas brasileiros que visitam a Rússia, pois dois casais que conheci durante a viagem também tinham acabado o livro.

Os Últimos Dias dos Romanov, de Helen Rapapport: o título é autoexplicativo, mas, além de descrever os meses que a família do último czar russo, Nicolau II, viveu na Casa Ipatiev, em Ecaterimburgo, o livro traça um perfil de cada um dos membros da família. A reconstituição desse período é bem realista – e, por isso mesmo, um pouco ficcional -, e emocionante.

O Mestre e Margarida, de Mikhail Bulgakov: ouvi falar desse livro ao ler o da Vivian Oswald, e era exatamente o que eu precisava: um romance que se passa em Moscou, já sob o regime comunista (tudo o que eu conhecia da literatura russa era do período anterior, ainda durante o império, ou retratava a própria Revolução Russa…). O Mestre e Margarida foi censurado durante muitos anos. O livro tenta disfarçar suas críticas ao regime recorrendo ao realismo fantástico, mas não consegue esconder seu feitio, afinal conta a história do dia em que o diabo em pessoa resolve visitar Moscou…

Viagem a Tralalá, de Wladimir Kaminer: esse, comprei já em Lisboa, a caminho de Moscou. O autor conta histórias suas e de seus amigos, todos tentando emigrar da Rússia para o ocidente no final da era comunista. Divertidíssimo!

Os Russos, de Angelo Segrillo: comprei depois que cheguei de viagem e acabei não lendo, mas resolvi indicar porque adoraria ter lido antes. Traz um resumo da história, cultura e costumes da Rússia e de seu povo.

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Metrô de Moscou: muito além de um meio de transporte

Reservei a minha manhã de domingo em Moscou para visitar algumas estações de metrô, aproveitando que estariam mais vazias no fim de semana.

O metrô de Moscou é uma das atrações mais famosas da cidade, porque, além do aspecto utilitário, a ideologia comunista entendia esse espaço como sendo os “palácios do povo”. Por isso, muitas das estações têm uma arquitetura suntuosa e rebuscada, buscando transmitir o poder do Estado, e são cheias de símbolos e imagens da propaganda do regime comunista.

Apesar de tudo o que eu tinha lido sobre o metrô, não pude deixar de me impressionar com o que vi. Não só a beleza de algumas estações – e o exagero de outras! – chamou a minha atenção: a extrema limpeza do metrô foi o que mais me surpreendeu. Todas as estações por que passei eram muito bem conservadas e imaculadamente limpas, ao contrário de outros sistemas de metrô que já vi mundo afora. O único lixo que vi – e esse é onipresente em toda a cidade – foram garrafas de bebida abandonadas, mas nada de papel, resto de comida, cigarros jogados pelo chão, e muito menos animais…

Fiz um roteirinho sugerido no meu guia Lonely Planet Moscou, parando em quase todas as estações sugeridas. As minhas preferidas foram:

Arbatskaya

Komsomolskaya

Novoslobodskaya

Prospekt Mira

Kievskaya

Ploshchad Revolutsii

Mayakovskaya

(Eu sei que vou parecer repetitiva, mas, se alguém chegou aqui no blog procurando informações práticas sobre como usar o metrô de Moscou, o melhor lugar para encontrar respostas é o post do Trip Advisor, que já citei várias vezes aqui).

Depois que terminei de ver o metrô, subi à superfície, e o tempo tinha virado completamente. O dia que tinha começado ensolarado virou uma tempestade, e eu decidi ir ver a Nova Galeria Tretyakov, um segundo prédio da Galeria Tretyakov, sobre a qual falei num outro post.

Tomei o metrô mais uma vez, desci na estação Polianka e… fiquei totalmente perdida! Essa estação está numa área mais residencial, e não consegui localizar em que direção devia seguir para chegar à galeria. Debaixo de uma chuva torrencial, saí caminhando para tentar me localizar a partir da esquina mais próxima, mas, ou o meu mapa omitia algumas ruas, ou elas tinham outro nome. Naquela chuva, a rua estava vazia. Ainda encontrei um senhor para pedir ajuda, mas, apesar da boa vontade dele, não consegui fazê-lo entender onde eu queria chegar. Quando eu falava “Tretyakov”, com meu melhor sotaque russo, ele achava que eu queria ir à Galeria Tretyakov, o outro prédio que eu já havia visitado antes, e não à “Nova Galeria Tretyakov”. E quando eu apontava no mapa o local da “Nova Galeria”, ele achava que eu estava apontado para o lugar onde estávamos parados… Como a chuva não diminuía e eu não conseguia entender mesmo o caminho, decidi voltar para o metrô antes de me perder ainda mais.

Todos os meus planos para o resto do dia envolviam parques e monumentos, nada que combinasse com chuva, então, troquei-os por um momento de “férias das férias”: passar a tarde num café, acompanhada de uma boa leitura. Pra mim, é a maior vantagem do slow travel, poder matar tempo sem culpa!

Nessa noite, fui assistir a uma apresentação do Ballet Bolshoi no segundo teatro deles, que fica bem próximo ao principal.

Não sei se estava com expectativas exageradas ou se estou sendo exigente demais – se bem que, pelo preço que paguei, tinha direito de esperar muito! -, mas não fiquei satisfeita com o espetáculo. Saí com a impressão de que era “coisa pra turista”. Mesmo sendo um espetáculo menor, composto de trechos de vários ballets, pensei que veria uma boa apresentação, afinal, o Bolshoi tem um nome a zelar… Mas, não. Eu não voltaria a ver um ballet no teatro secundário, mas, se fosse no principal, acho que a curiosidade seria mais forte…


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